Passados alguns anos, começou a entender que o tempo não era um inimigo, mas que estava sempre mostrando e revelando pequenos fragmentos de existência. Era saboroso, cada dia tinha sua mística, cada hora sua revelação, cada minuto era como um momento congelado em polaróide, era a temática do mundo, o macrocosmo se revelando em todos os seus átomos, todo o universo condensado em seu ser.
Essa verdade que sozinha descobrira a tornara crente, uma pessoa de fé. Passara a crer na existência e em todas as pequenas coisinhas triviais de sua vida comum, descobrira que nessa trivialidade residia todo o segredo que sempre buscara.
E o segredo era fantástico, era a vida transcorrendo de trás para frente como num filme rebobinado, cada pedaço de existência acontecia apenas para mostrar novamente o que há tempos ocorrera, como se a ela fosse dada uma segunda chance.
Os momentos,então, ainda que mínimos ou aparentemente insignifantes eram marcados numa espécie de calendário mental: lembrar-me-ei desse dia quando for velha, pensava, lembrar-me-ei desse momento, marcarei esse momento para não me esquecer no final, balbuciava, e nessas orações improvisadas todas as coisas com suas delícias e dores passavam a ter todo o sentido.
Eram muitos os momentos que, gradualmente, passara a acumular, numa caixinha mística no fundo do armário. Inicialmente, apenas as raras coisas excepcionais que lhe ocorriam mereciam sua atenção e consequente arquivo, entretanto, gradualmente, todo pequeno fato parecia sonho, sonho fantástico a reivindicar lembrança póstuma. É que em seu despertar concluíra, assim, como num flash, que todos os acontecimentos cotidianos vinham cobertos por uma capa ordinária, e que era necessário despi-los todos para encontrar a essência do universo.
Assim, a lua refletida no vidro da porta da sacada em uma noite solitária não era apenas uma lua refletida no vidro, mas era o momento, único e inacabado de toda a sua existência, era um fragmento de sonho que relembraria depois de partir, era um réquiem de um conto fantástico. E dessa forma, todos os instantes mais simples, inocentes ou não, todos tinham sua mística única.
Ah, se as pessoas soubessem, pensava, que beleza infinita há em suas vidas comuns!
Essa fé, esse estado religioso de existência passou a exigir dela uma disposição infinita para a vida. É que percebera cedo que a vida passaria num zás-trás, como num conto de fadas e tinha pavor inenarrável do arrependimento. Sentia que a pior coisa que poderia lhe ocorrer era sentir o amargo sabor de não ter vivido suficientemente a fantasia da existência. Pois sim, estava certa de que a vida era uma fantasia sem fim e que além da verdade pulsante que residia em si e em cada um, todo o resto era falso, era travestido.
Ah, leitor, pare e pense se essa mulher, sem nenhum encanto particular, sem grandes aspirações e sem destaque, não tem alguma razão. Observe atentamente, desde a hora de acordar até o momento de dormir, as revelações que ocorrem minuto a minuto em sua existência. E por favor, quando elas se mostrarem não deixe de guardá-las bem, pois elas são o que faz tudo, sem exceção, valer a pena!
domingo, 1 de março de 2009
Assinar:
Comentários (Atom)