sexta-feira, 5 de setembro de 2008

“UM FILHO E UM CACHORRO”

Ela ainda não tinha um filho, se bem que tivesse um cachorro, que deixara com a avó. Estava desinteressadamente trocando as estações de rádio enquanto dirigia, quando ouvira a música e rira divertidamente da letra, “como num comercial de margarina” era de uma profundidade certeira, pensara.


Não sabia o que era se sentir num comercial de margarina, mas quase que diariamente encontrava pessoas que se sentiam em um. Não se lembrava de onde vinha aquela descrença profunda que parecia já ter nascido com ela.


A verdade é que nunca acreditou na filosofia do comercial de margarina.


Era uma descrença de infância, e que fazia com que suas bonecas se separassem, fossem traídas, casassem novamente e novamente se separassem, ou os maridos morressem e os filhos sumissem. Lembrou-se de que a mãe, vendo chocada aquilo, a mandara para uma ludoterapeuta, num desespero misturado a complexo de culpa.


Já naquela época sabia que a mãe não era culpada, era a vida e só isso.


Mas, aos sete anos, seria inútil dizer qualquer coisa à mãe porque ela ainda acreditava, apesar do casamento fracassado, no maldito comercial de margarina!


A ida a terapeuta não fora tão ruim assim, é verdade, se bem que ela continuou pela vida afora cheia de neuroses e complexos que aumentavam na mesma proporção de suas rugas. Não sabia se os desenhos que fizera na terapia era o que realmente sentia, ou o que achava que a terapeuta queria ver, sabe-se lá. Também não sabia se percebia que aqueles encontros semanais significavam que existia um problema a ser resolvido. Mas é certo que foi uma experiência interessante ao menos para descartar, definitivamente, a possibilidade de fazer novamente qualquer tipo de terapia.


Agora, ouvindo a música, pusera-se a pensar em que momento perdera a fé no comercial de margarina. A perda dessa crença alterou profundamente suas perspectivas de vida. Daí em diante sua existência seria pautada não pelos objetivos positivos, mas pelos objetivos de negação: não sair de casa antes dos vinte oito, não casar ou engravidar antes da formatura, não ter filhos antes dos trinta e cinco e assim por diante. A equação era muito simples: a vida não era exatamente do jeito que se queria, então, não adiantava ter grandes ambições, era preciso escapar dos erros e o que viesse de bom seria lucro!


A descrença na filosofia do comercial de margarina tomou grandes proporções: por conta dela não fizera festa de quinze anos, não fizera festa de formatura e nem festa de casamento. É que se sentiria sempre uma farsante, adepta de uma filosofia mentirosa e não podia compactuar com isso. E quando aparecia em uma dessas cerimônias, olhava as pessoas com olhos espantados, todas vivendo quatro horas de ilusão consciente, como que embriagadas ou entorpecidas pela filosofia do comercial de margarina!


Ora, a vida não era isso!


Era bem verdade que lá no fundo, bem no fundo, alguma coisa da filosofia existia nela, latente, soturna, esperando o momento exato para se manifestar e tornar a sua vida uma fonte profunda de desilusão. Por isso, era melhor, ainda que só conscientemente, manter sua descrença em tudo o que lembrasse aqueles comerciais bonitinhos, com suas mamães, seus papais e filhinhos, e o cachorro, lógico, tão pasteurizados que faziam-na imaginar aqueles filmes coloridos por computador.


Certamente, a vida não era isso!


Era gozado para ela ver como algumas pessoas, apesar de todas as agruras do mundo, ainda se apegavam desesperadamente `aquelas cenas lânguidas da filosofia de margarina, e até mesmo aqueles que nunca em sua triste vida tivessem visto ao vivo e em cores uma cena daquelas, teimavam em acreditar naquela filosofia barata.


Não, definitivamente a vida não era isso!


Lembrou-se de que pouco tempo atrás, a mãe dissera que, infelizmente, não tinha tido uma família normal, como aquelas de comercial de margarina. Deus, pensara, ela ainda acredita nisso, depois de todos esses anos? E foi então que percebera como a ignorância pode realmente ser uma benção, mas também pode ser a desgraça de um ser humano. Ora, quem disse que aquilo era uma família normal, aquilo era a coisa mais fake que já tinha visto em toda a sua vida!


Mas, alguns ainda acreditam em todo o tipo de filosofia de botequim que se empurra goela abaixo!


A triste constatação que fazia ao pensar nisso tudo, é que a fabulosa filosofia do comercial de margarina era transmitida de geração a geração há tempos. E calculava que se tais terríveis comerciais responsáveis pela criação de uma legião de pedintes por felicidade existiam desde a década de cinqüenta, havia no mundo umas três ou quatro gerações que se formavam com base na filosofia do comercial de margarina.


E como alertá-los de que a vida JAMAIS seria isso?


Ao menos ela, pensava, estava livre dessa doença que paralisava a mente humana e fazia com que todos seguissem como que cegos ao que a vida realmente tinha a oferecer de enriquecedor. E pensou que se soubessem o que ela achava a respeito dos comerciais de margarina e da existência, diriam que era uma pessimista de plantão, descrente do amor e da família. Não! Ao contrário, ela acreditava no bom e no belo, mas acreditava muito mais na Vida, e a Vida era mais forte que tudo isso, a Vida se fazia presente sempre de forma devastadora!


E era por isso que a filosofia de comercial de margarina não podia ser levada a sério!


A música terminara e repentinamente sua auto-análise a fizera descobrir em que momento banira para sempre de sua vida a crença no comercial de margarina: e viu, como se revivesse, seus sete anos de idade, o carro se afastando, o olhar cabisbaixo do pai parado na calçada, o pacote de biscoito em suas mãos, e o vazio, e o silêncio e a dor.

Nenhum comentário: