A vida sempre cobra mais, sempre. Quando você pensa que está no seu melhor momento ela vem pra que você pague o preço... e tudo tem seu preço, tudo, não pense que isso é filosofia barata de botequim, isso é a mais dura verdade sentida na carne... e nunca, mas nunca se pode ter tudo, nunca!
Vivemos, lutamos e sofremos pra descobrir apenas isso e mais nada, nada que se ganha permanecerá até o fim, a vida é simplesmente uma sucessão de perdas com alguns ganhos. Como os ganhos são pequenos é preciso que tenham valor realmente, é preciso que todo esse sofrimento nos torne pessoas mais fortes, mas acima de tudo é preciso que tanto sofrimento nos torne pessoas verdadeiramente humanas... que outro sentido há nisso tudo que passamos?
Melhor não pensar muito, melhor não buscar respostas, a vida é isso, ela está aí pra que você se jogue sem paraquedas, sem ajuda, sem colo, sem palavras ternas, sem nada, sua única saída é fechar os olhos e se jogar, não deixar pra amanhã, não lamentar suas escolhas, não ter raiva mesmo daquele que te empurrou quando você estava em dúvida se valia ou não a pena mergulhar, ainda que no momento da volta você sinta o gosto amargo do arrependimento...
O arrependimento do que se deixou para trás, daqueles que se foram de nossas vidas por buscarmos algo mais, o amargo gosto da saudade, de não se poder ter todos que amamos ao nosso lado, acredite não há volta...
E `as tantas pessoas que vêm e vão de nossas vidas, umas amigas, outras cruéis, umas que aconchegam e outras que magoam, ainda assim, ainda quando vem a decepção é preciso ser forte o bastante para agradecer, para entender, para compreender e oferecer o ombro e perdoar...
Não meu amigo, nuna nos disseram que seria fácil, mas também nunca nos preparam para a guerra porque simplesmente não há manual, nem receita, nem guru, nada que ensine como se pode passar por aqui sem dor... é melhor se jogar logo, agora, mas nunca, jamais, deixar que a vida passe por você sem compromisso... prepare-se sempre para pagar o preço alto e duro de viver intensamente e seja feliz ainda que chorando... acredite, não há outra maneira de se viver de verdade, a vida é simplesmente assim...
"Everytime that I look in the mirror
All these lines on my face gettin clearer
The past is gone
It went by like dust to dawn
Isnt that the way
Everybodys got their dues in life to pay
I know what nobody knows
Where it comes and where it goes
I know its everybodys sin
You got to lose to know how to win
Half my life is in books written pages
Live and learn from fools and from sages
You know its true
All the things come back to you
Sing with me, sing for the years
Sing for the laughter, sing for the tears
Sing with me, if its just for today
Maybe tomorrow the good lord will take you away
Dream on, dream on
Dream yourself a dream come true
Dream on, dream on
Dream until your dream come true
Dream on, dream on, dream on..."
sábado, 8 de agosto de 2009
domingo, 1 de março de 2009
A mística do mundo
Passados alguns anos, começou a entender que o tempo não era um inimigo, mas que estava sempre mostrando e revelando pequenos fragmentos de existência. Era saboroso, cada dia tinha sua mística, cada hora sua revelação, cada minuto era como um momento congelado em polaróide, era a temática do mundo, o macrocosmo se revelando em todos os seus átomos, todo o universo condensado em seu ser.
Essa verdade que sozinha descobrira a tornara crente, uma pessoa de fé. Passara a crer na existência e em todas as pequenas coisinhas triviais de sua vida comum, descobrira que nessa trivialidade residia todo o segredo que sempre buscara.
E o segredo era fantástico, era a vida transcorrendo de trás para frente como num filme rebobinado, cada pedaço de existência acontecia apenas para mostrar novamente o que há tempos ocorrera, como se a ela fosse dada uma segunda chance.
Os momentos,então, ainda que mínimos ou aparentemente insignifantes eram marcados numa espécie de calendário mental: lembrar-me-ei desse dia quando for velha, pensava, lembrar-me-ei desse momento, marcarei esse momento para não me esquecer no final, balbuciava, e nessas orações improvisadas todas as coisas com suas delícias e dores passavam a ter todo o sentido.
Eram muitos os momentos que, gradualmente, passara a acumular, numa caixinha mística no fundo do armário. Inicialmente, apenas as raras coisas excepcionais que lhe ocorriam mereciam sua atenção e consequente arquivo, entretanto, gradualmente, todo pequeno fato parecia sonho, sonho fantástico a reivindicar lembrança póstuma. É que em seu despertar concluíra, assim, como num flash, que todos os acontecimentos cotidianos vinham cobertos por uma capa ordinária, e que era necessário despi-los todos para encontrar a essência do universo.
Assim, a lua refletida no vidro da porta da sacada em uma noite solitária não era apenas uma lua refletida no vidro, mas era o momento, único e inacabado de toda a sua existência, era um fragmento de sonho que relembraria depois de partir, era um réquiem de um conto fantástico. E dessa forma, todos os instantes mais simples, inocentes ou não, todos tinham sua mística única.
Ah, se as pessoas soubessem, pensava, que beleza infinita há em suas vidas comuns!
Essa fé, esse estado religioso de existência passou a exigir dela uma disposição infinita para a vida. É que percebera cedo que a vida passaria num zás-trás, como num conto de fadas e tinha pavor inenarrável do arrependimento. Sentia que a pior coisa que poderia lhe ocorrer era sentir o amargo sabor de não ter vivido suficientemente a fantasia da existência. Pois sim, estava certa de que a vida era uma fantasia sem fim e que além da verdade pulsante que residia em si e em cada um, todo o resto era falso, era travestido.
Ah, leitor, pare e pense se essa mulher, sem nenhum encanto particular, sem grandes aspirações e sem destaque, não tem alguma razão. Observe atentamente, desde a hora de acordar até o momento de dormir, as revelações que ocorrem minuto a minuto em sua existência. E por favor, quando elas se mostrarem não deixe de guardá-las bem, pois elas são o que faz tudo, sem exceção, valer a pena!
Essa verdade que sozinha descobrira a tornara crente, uma pessoa de fé. Passara a crer na existência e em todas as pequenas coisinhas triviais de sua vida comum, descobrira que nessa trivialidade residia todo o segredo que sempre buscara.
E o segredo era fantástico, era a vida transcorrendo de trás para frente como num filme rebobinado, cada pedaço de existência acontecia apenas para mostrar novamente o que há tempos ocorrera, como se a ela fosse dada uma segunda chance.
Os momentos,então, ainda que mínimos ou aparentemente insignifantes eram marcados numa espécie de calendário mental: lembrar-me-ei desse dia quando for velha, pensava, lembrar-me-ei desse momento, marcarei esse momento para não me esquecer no final, balbuciava, e nessas orações improvisadas todas as coisas com suas delícias e dores passavam a ter todo o sentido.
Eram muitos os momentos que, gradualmente, passara a acumular, numa caixinha mística no fundo do armário. Inicialmente, apenas as raras coisas excepcionais que lhe ocorriam mereciam sua atenção e consequente arquivo, entretanto, gradualmente, todo pequeno fato parecia sonho, sonho fantástico a reivindicar lembrança póstuma. É que em seu despertar concluíra, assim, como num flash, que todos os acontecimentos cotidianos vinham cobertos por uma capa ordinária, e que era necessário despi-los todos para encontrar a essência do universo.
Assim, a lua refletida no vidro da porta da sacada em uma noite solitária não era apenas uma lua refletida no vidro, mas era o momento, único e inacabado de toda a sua existência, era um fragmento de sonho que relembraria depois de partir, era um réquiem de um conto fantástico. E dessa forma, todos os instantes mais simples, inocentes ou não, todos tinham sua mística única.
Ah, se as pessoas soubessem, pensava, que beleza infinita há em suas vidas comuns!
Essa fé, esse estado religioso de existência passou a exigir dela uma disposição infinita para a vida. É que percebera cedo que a vida passaria num zás-trás, como num conto de fadas e tinha pavor inenarrável do arrependimento. Sentia que a pior coisa que poderia lhe ocorrer era sentir o amargo sabor de não ter vivido suficientemente a fantasia da existência. Pois sim, estava certa de que a vida era uma fantasia sem fim e que além da verdade pulsante que residia em si e em cada um, todo o resto era falso, era travestido.
Ah, leitor, pare e pense se essa mulher, sem nenhum encanto particular, sem grandes aspirações e sem destaque, não tem alguma razão. Observe atentamente, desde a hora de acordar até o momento de dormir, as revelações que ocorrem minuto a minuto em sua existência. E por favor, quando elas se mostrarem não deixe de guardá-las bem, pois elas são o que faz tudo, sem exceção, valer a pena!
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
À espreita
Foi devido à sombra refletida na vidraça da porta que descobrira ela, soturna, emblemática e não de todo desconhecida, quieta e sempre espreitando. A percepção do espectro a fizera estremecer profundamente, e repentino surgiu o desejo de fugir, sair correndo pela rua, sem rumo e sem destino.
O certo é que, ainda que inconscientemente, sabia que desde o dia em que fora gerada, numa tarde triste de abril, sem raios de sol, nem flores e nem chuva, ela estava lá, observando os menores movimentos e ondas de seu estágio inicial de existência e que de lá não mais sairia.
A vida transcorrera, como a todos acontece, com seus sonhos desfeitos e poucos realizados, seus desejos incompreensíveis, suas aspirações impossíveis, suas angústias e decepções e seus esparsos momentos de alegria verdadeira. Por conta disso, esquecera-se completamente dela, não se dava ao trabalho de notar sua presença.
Mas de repente, como num sonho, tudo mudara, de repente olhava suas mãos e via-se envelhecendo e sumindo aos poucos aquela que fora um dia.
Ah, sim, aquela que fora um dia, onde andaria? Em que curva se perdera? Em que momento o mundo, sempre soberano e implacável, a reduzira naquilo?
Aquela que fora um dia, numa tarde quente de dezembro, naqueles dias mornos e lentos, aquela escrevia poesia e acreditava poder virar o mundo de cabeça para baixo! Agora estava descrente desse mesmo mundo e de toda a humanidade, embora não houvesse passado tanto tempo assim entre a menina encantada de tudo e a mulher triste, de olhos cabisbaixos e pedintes de um pouco de sentido.
Aquela que a espreitava pela vidraça da porta, nos bares sentada ao lado, nas ruas aos devaneios, no reflexo das águas de um chafariz qualquer, nas vitrinas das lojas que olhava sem muito interesse, nas noites de insônia em que chorava baixinho ao lado do marido que dormia, nos momentos secretos em que jurava estar enlouquecendo, seria a menina que escrevia poesia em tardes mornas e despreocupadas?
Provavelmente não. Aquela que a espreitava tinha um olhar perverso de acusação.O mesmo olhar que censurava a sua escolha por uma vida trivial e ordinária, a qual se resumiria em acordar todos os dias sem grandes aspirações e despida de qualquer convicção.
Passara então a odiar as sombras e as noites mal iluminadas e a ter certo medo do escuro e do imprevisível. Procurava aniquilar aquela que a observava através dos reflexos com os olhos cravados e esbugalhados de decepção e raiva, e cuja presença começara a se tornar constante a medida que o tempo passava, de tal modo que finalmente desistira de fugir dela.
Aquela era mais forte, era cruel e despudorada, mas era mais verdadeira e por conta de toda a verdade que carregava, era inevitável. Deixou-se então entregue a ela sem protesto e sem revolta, apenas conformada com o destino de negar-se para em seguida ser lembrada do que fora.
E assim prosseguiriam juntas, ela negando, aquela lembrando, até o fim.
O certo é que, ainda que inconscientemente, sabia que desde o dia em que fora gerada, numa tarde triste de abril, sem raios de sol, nem flores e nem chuva, ela estava lá, observando os menores movimentos e ondas de seu estágio inicial de existência e que de lá não mais sairia.
A vida transcorrera, como a todos acontece, com seus sonhos desfeitos e poucos realizados, seus desejos incompreensíveis, suas aspirações impossíveis, suas angústias e decepções e seus esparsos momentos de alegria verdadeira. Por conta disso, esquecera-se completamente dela, não se dava ao trabalho de notar sua presença.
Mas de repente, como num sonho, tudo mudara, de repente olhava suas mãos e via-se envelhecendo e sumindo aos poucos aquela que fora um dia.
Ah, sim, aquela que fora um dia, onde andaria? Em que curva se perdera? Em que momento o mundo, sempre soberano e implacável, a reduzira naquilo?
Aquela que fora um dia, numa tarde quente de dezembro, naqueles dias mornos e lentos, aquela escrevia poesia e acreditava poder virar o mundo de cabeça para baixo! Agora estava descrente desse mesmo mundo e de toda a humanidade, embora não houvesse passado tanto tempo assim entre a menina encantada de tudo e a mulher triste, de olhos cabisbaixos e pedintes de um pouco de sentido.
Aquela que a espreitava pela vidraça da porta, nos bares sentada ao lado, nas ruas aos devaneios, no reflexo das águas de um chafariz qualquer, nas vitrinas das lojas que olhava sem muito interesse, nas noites de insônia em que chorava baixinho ao lado do marido que dormia, nos momentos secretos em que jurava estar enlouquecendo, seria a menina que escrevia poesia em tardes mornas e despreocupadas?
Provavelmente não. Aquela que a espreitava tinha um olhar perverso de acusação.O mesmo olhar que censurava a sua escolha por uma vida trivial e ordinária, a qual se resumiria em acordar todos os dias sem grandes aspirações e despida de qualquer convicção.
Passara então a odiar as sombras e as noites mal iluminadas e a ter certo medo do escuro e do imprevisível. Procurava aniquilar aquela que a observava através dos reflexos com os olhos cravados e esbugalhados de decepção e raiva, e cuja presença começara a se tornar constante a medida que o tempo passava, de tal modo que finalmente desistira de fugir dela.
Aquela era mais forte, era cruel e despudorada, mas era mais verdadeira e por conta de toda a verdade que carregava, era inevitável. Deixou-se então entregue a ela sem protesto e sem revolta, apenas conformada com o destino de negar-se para em seguida ser lembrada do que fora.
E assim prosseguiriam juntas, ela negando, aquela lembrando, até o fim.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
O Início da Loucura
Não conseguia entender porque vivia como em sonhos, sempre distante da realidade, e porque e realidade dizia menos do que a verdade dentro de sua cabeça. O certo é que pensava estar velha para seguir assim pela vida, era hora de colocar a cabecinha no lugar, urgente!
Hyernrnfgfygfgbffhfoffewuew7uegyewyheegewewihewifjwoefjowefklo... Ah! Isso era o mundo, indefinição! A única coisa certa era que estava doente, sentia-se fraca, o mundo causava nela um profundo desânimo, se ao menos pudesse ficar para sempre em casa, se alimentando dos devaneios que povoavam sua cabeça, mas não, isso também não era possível.
Sim, estava doente, certas vezes acreditava realmente estar louca... o que seria isso? Não, não, não era louca, pois apesar de tudo, ainda conseguia produzir alguma coisa, ainda que mínima, ainda que levasse certo tempo, ainda que ficasse mal feito e indefinido.
Era bem verdade que produzia de forma lenta, quase imperceptível, tanto que um projeto a ser alcançado em dois anos era atingido apenas depois de dez! Não, melhor não pensar nisso, seguir vivendo aos trancos e barrancos era melhor, até quando desse, enquanto fosse possível...
Dessa feita, sua vida então consistia em saber-se louca, fingir-se normal, sentir-se culpada... essa era a síntese de sua existência alienada, e que convencia até certo ponto, ao menos até fora convincente.
Mas, agora, sentia não conseguir mais dissimular, e todos os seus movimentos entregavam a verdade em uma bandeja... e os colegas do curso e do trabalho, olhavam-na como, coitada! É doidinha!
Oh, Deus, sou mesmo louca, pensava repetidas vezes, sozinha, no café da manhã, no almoço, esperando o ônibus, escovando os dentes, antes de dormir.
E imaginava o futuro próximo, as portas do manicômio da esquina se abririam para ela, que entraria sem ao menos titubear, sem protestar e sem chorar!
Por vezes, quase que constantemente, sentia sua vida transcorrer de trás para frente, com uma certeza incontestável de fim. O fim estava sempre próximo, os anos passavam em desespero e agonia, e a cada passo conquistado, o desânimo se apoderava dela, como se a conquista fosse tão certa quanto a lembrança da cena de um filme visto repetidas vezes.
Era bom não falar com ninguém sobre tais coisas... afinal, sabia viver melhor aquele que mentia, que fingia e dissimulava tão profundamente a ponto de acreditar ser verdade. Infelizmente, nem em um segundo tanta dissimulação a fizera crer, o que só aumentara a certeza de estar realmente louca!
Mas, digam, os loucos sabem que o são?
Então, talvez ela não fosse louca, apenas um pouco desequilibrada, ou sonhadora, ou romântica, ou depravada, ou qualquer coisa que não se mostrasse assim tão simples e linear e estático e direto.
Ora, ela teria uma escolha: poderia tentar se encaixar em tudo o que ali estava, ou seguir pela vida afora assim mesmo, sem certeza de nada, sem noção de coisa nenhuma e menos ainda de si mesma.
O certo é que depois de tantas análises inúteis, chegara à conclusão de que, no fundo, as pessoas eram todas assim e todas, sem exceção, dissimulavam o tempo todo, sempre fingindo serem o que não eram, mais grandiosas, mais nobres, mais gentis, mais felizes, mais humanas, mais, mais e mais...
Percebera, embora tardiamente, que não, não estava enlouquecendo, não, não era diferente (embora seu ego teimasse em afirmar ser superior, majestosa, praticamente iluminada!), era mesmo igual a todos e como todos seguiria pelo mundo mascarada, perturbada e só!
Hyernrnfgfygfgbffhfoffewuew7uegyewyheegewewihewifjwoefjowefklo... Ah! Isso era o mundo, indefinição! A única coisa certa era que estava doente, sentia-se fraca, o mundo causava nela um profundo desânimo, se ao menos pudesse ficar para sempre em casa, se alimentando dos devaneios que povoavam sua cabeça, mas não, isso também não era possível.
Sim, estava doente, certas vezes acreditava realmente estar louca... o que seria isso? Não, não, não era louca, pois apesar de tudo, ainda conseguia produzir alguma coisa, ainda que mínima, ainda que levasse certo tempo, ainda que ficasse mal feito e indefinido.
Era bem verdade que produzia de forma lenta, quase imperceptível, tanto que um projeto a ser alcançado em dois anos era atingido apenas depois de dez! Não, melhor não pensar nisso, seguir vivendo aos trancos e barrancos era melhor, até quando desse, enquanto fosse possível...
Dessa feita, sua vida então consistia em saber-se louca, fingir-se normal, sentir-se culpada... essa era a síntese de sua existência alienada, e que convencia até certo ponto, ao menos até fora convincente.
Mas, agora, sentia não conseguir mais dissimular, e todos os seus movimentos entregavam a verdade em uma bandeja... e os colegas do curso e do trabalho, olhavam-na como, coitada! É doidinha!
Oh, Deus, sou mesmo louca, pensava repetidas vezes, sozinha, no café da manhã, no almoço, esperando o ônibus, escovando os dentes, antes de dormir.
E imaginava o futuro próximo, as portas do manicômio da esquina se abririam para ela, que entraria sem ao menos titubear, sem protestar e sem chorar!
Por vezes, quase que constantemente, sentia sua vida transcorrer de trás para frente, com uma certeza incontestável de fim. O fim estava sempre próximo, os anos passavam em desespero e agonia, e a cada passo conquistado, o desânimo se apoderava dela, como se a conquista fosse tão certa quanto a lembrança da cena de um filme visto repetidas vezes.
Era bom não falar com ninguém sobre tais coisas... afinal, sabia viver melhor aquele que mentia, que fingia e dissimulava tão profundamente a ponto de acreditar ser verdade. Infelizmente, nem em um segundo tanta dissimulação a fizera crer, o que só aumentara a certeza de estar realmente louca!
Mas, digam, os loucos sabem que o são?
Então, talvez ela não fosse louca, apenas um pouco desequilibrada, ou sonhadora, ou romântica, ou depravada, ou qualquer coisa que não se mostrasse assim tão simples e linear e estático e direto.
Ora, ela teria uma escolha: poderia tentar se encaixar em tudo o que ali estava, ou seguir pela vida afora assim mesmo, sem certeza de nada, sem noção de coisa nenhuma e menos ainda de si mesma.
O certo é que depois de tantas análises inúteis, chegara à conclusão de que, no fundo, as pessoas eram todas assim e todas, sem exceção, dissimulavam o tempo todo, sempre fingindo serem o que não eram, mais grandiosas, mais nobres, mais gentis, mais felizes, mais humanas, mais, mais e mais...
Percebera, embora tardiamente, que não, não estava enlouquecendo, não, não era diferente (embora seu ego teimasse em afirmar ser superior, majestosa, praticamente iluminada!), era mesmo igual a todos e como todos seguiria pelo mundo mascarada, perturbada e só!
domingo, 7 de setembro de 2008
"Ficções"
"Devo à conjunção de um espelho e uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar (...) Do fundo remoto do corredor, o espelho nos espreitava. Descobrimos (na noite alta esta descoberta é inevitável) que os espelhos têm algo de monstruoso. Então Bioy Cesares recordou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens"
(Ficções - Jorge Luis Borges)
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Partida
Meu desejo repentino,
nesta tarde ensolarada de domingo,
é poder, no momento da partida,
lembrar-me de estar trocando os lençóis de nossa cama de casal,
olhando a árvore que balança através de nossa janela,
ouvindo os pássaros que nela se escondem.
E lembrar de ter trinta anos apenas,
e de ser enlouquecedoramente feliz!
Para que tal minuto,
quando a vida me vier assolar com sua fúria inesperada,
se traduza, então, em Eternidade.
nesta tarde ensolarada de domingo,
é poder, no momento da partida,
lembrar-me de estar trocando os lençóis de nossa cama de casal,
olhando a árvore que balança através de nossa janela,
ouvindo os pássaros que nela se escondem.
E lembrar de ter trinta anos apenas,
e de ser enlouquecedoramente feliz!
Para que tal minuto,
quando a vida me vier assolar com sua fúria inesperada,
se traduza, então, em Eternidade.
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