Foi devido à sombra refletida na vidraça da porta que descobrira ela, soturna, emblemática e não de todo desconhecida, quieta e sempre espreitando. A percepção do espectro a fizera estremecer profundamente, e repentino surgiu o desejo de fugir, sair correndo pela rua, sem rumo e sem destino.
O certo é que, ainda que inconscientemente, sabia que desde o dia em que fora gerada, numa tarde triste de abril, sem raios de sol, nem flores e nem chuva, ela estava lá, observando os menores movimentos e ondas de seu estágio inicial de existência e que de lá não mais sairia.
A vida transcorrera, como a todos acontece, com seus sonhos desfeitos e poucos realizados, seus desejos incompreensíveis, suas aspirações impossíveis, suas angústias e decepções e seus esparsos momentos de alegria verdadeira. Por conta disso, esquecera-se completamente dela, não se dava ao trabalho de notar sua presença.
Mas de repente, como num sonho, tudo mudara, de repente olhava suas mãos e via-se envelhecendo e sumindo aos poucos aquela que fora um dia.
Ah, sim, aquela que fora um dia, onde andaria? Em que curva se perdera? Em que momento o mundo, sempre soberano e implacável, a reduzira naquilo?
Aquela que fora um dia, numa tarde quente de dezembro, naqueles dias mornos e lentos, aquela escrevia poesia e acreditava poder virar o mundo de cabeça para baixo! Agora estava descrente desse mesmo mundo e de toda a humanidade, embora não houvesse passado tanto tempo assim entre a menina encantada de tudo e a mulher triste, de olhos cabisbaixos e pedintes de um pouco de sentido.
Aquela que a espreitava pela vidraça da porta, nos bares sentada ao lado, nas ruas aos devaneios, no reflexo das águas de um chafariz qualquer, nas vitrinas das lojas que olhava sem muito interesse, nas noites de insônia em que chorava baixinho ao lado do marido que dormia, nos momentos secretos em que jurava estar enlouquecendo, seria a menina que escrevia poesia em tardes mornas e despreocupadas?
Provavelmente não. Aquela que a espreitava tinha um olhar perverso de acusação.O mesmo olhar que censurava a sua escolha por uma vida trivial e ordinária, a qual se resumiria em acordar todos os dias sem grandes aspirações e despida de qualquer convicção.
Passara então a odiar as sombras e as noites mal iluminadas e a ter certo medo do escuro e do imprevisível. Procurava aniquilar aquela que a observava através dos reflexos com os olhos cravados e esbugalhados de decepção e raiva, e cuja presença começara a se tornar constante a medida que o tempo passava, de tal modo que finalmente desistira de fugir dela.
Aquela era mais forte, era cruel e despudorada, mas era mais verdadeira e por conta de toda a verdade que carregava, era inevitável. Deixou-se então entregue a ela sem protesto e sem revolta, apenas conformada com o destino de negar-se para em seguida ser lembrada do que fora.
E assim prosseguiriam juntas, ela negando, aquela lembrando, até o fim.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
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Um comentário:
Que texto forte, querida! E belíssimo!
Quantas vezes olhamos no espelho procurando por alguém que fomos e já não somos mais?...
Parabéns pelo dom da escrita!
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