segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
À espreita
O certo é que, ainda que inconscientemente, sabia que desde o dia em que fora gerada, numa tarde triste de abril, sem raios de sol, nem flores e nem chuva, ela estava lá, observando os menores movimentos e ondas de seu estágio inicial de existência e que de lá não mais sairia.
A vida transcorrera, como a todos acontece, com seus sonhos desfeitos e poucos realizados, seus desejos incompreensíveis, suas aspirações impossíveis, suas angústias e decepções e seus esparsos momentos de alegria verdadeira. Por conta disso, esquecera-se completamente dela, não se dava ao trabalho de notar sua presença.
Mas de repente, como num sonho, tudo mudara, de repente olhava suas mãos e via-se envelhecendo e sumindo aos poucos aquela que fora um dia.
Ah, sim, aquela que fora um dia, onde andaria? Em que curva se perdera? Em que momento o mundo, sempre soberano e implacável, a reduzira naquilo?
Aquela que fora um dia, numa tarde quente de dezembro, naqueles dias mornos e lentos, aquela escrevia poesia e acreditava poder virar o mundo de cabeça para baixo! Agora estava descrente desse mesmo mundo e de toda a humanidade, embora não houvesse passado tanto tempo assim entre a menina encantada de tudo e a mulher triste, de olhos cabisbaixos e pedintes de um pouco de sentido.
Aquela que a espreitava pela vidraça da porta, nos bares sentada ao lado, nas ruas aos devaneios, no reflexo das águas de um chafariz qualquer, nas vitrinas das lojas que olhava sem muito interesse, nas noites de insônia em que chorava baixinho ao lado do marido que dormia, nos momentos secretos em que jurava estar enlouquecendo, seria a menina que escrevia poesia em tardes mornas e despreocupadas?
Provavelmente não. Aquela que a espreitava tinha um olhar perverso de acusação.O mesmo olhar que censurava a sua escolha por uma vida trivial e ordinária, a qual se resumiria em acordar todos os dias sem grandes aspirações e despida de qualquer convicção.
Passara então a odiar as sombras e as noites mal iluminadas e a ter certo medo do escuro e do imprevisível. Procurava aniquilar aquela que a observava através dos reflexos com os olhos cravados e esbugalhados de decepção e raiva, e cuja presença começara a se tornar constante a medida que o tempo passava, de tal modo que finalmente desistira de fugir dela.
Aquela era mais forte, era cruel e despudorada, mas era mais verdadeira e por conta de toda a verdade que carregava, era inevitável. Deixou-se então entregue a ela sem protesto e sem revolta, apenas conformada com o destino de negar-se para em seguida ser lembrada do que fora.
E assim prosseguiriam juntas, ela negando, aquela lembrando, até o fim.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
O Início da Loucura
Hyernrnfgfygfgbffhfoffewuew7uegyewyheegewewihewifjwoefjowefklo... Ah! Isso era o mundo, indefinição! A única coisa certa era que estava doente, sentia-se fraca, o mundo causava nela um profundo desânimo, se ao menos pudesse ficar para sempre em casa, se alimentando dos devaneios que povoavam sua cabeça, mas não, isso também não era possível.
Sim, estava doente, certas vezes acreditava realmente estar louca... o que seria isso? Não, não, não era louca, pois apesar de tudo, ainda conseguia produzir alguma coisa, ainda que mínima, ainda que levasse certo tempo, ainda que ficasse mal feito e indefinido.
Era bem verdade que produzia de forma lenta, quase imperceptível, tanto que um projeto a ser alcançado em dois anos era atingido apenas depois de dez! Não, melhor não pensar nisso, seguir vivendo aos trancos e barrancos era melhor, até quando desse, enquanto fosse possível...
Dessa feita, sua vida então consistia em saber-se louca, fingir-se normal, sentir-se culpada... essa era a síntese de sua existência alienada, e que convencia até certo ponto, ao menos até fora convincente.
Mas, agora, sentia não conseguir mais dissimular, e todos os seus movimentos entregavam a verdade em uma bandeja... e os colegas do curso e do trabalho, olhavam-na como, coitada! É doidinha!
Oh, Deus, sou mesmo louca, pensava repetidas vezes, sozinha, no café da manhã, no almoço, esperando o ônibus, escovando os dentes, antes de dormir.
E imaginava o futuro próximo, as portas do manicômio da esquina se abririam para ela, que entraria sem ao menos titubear, sem protestar e sem chorar!
Por vezes, quase que constantemente, sentia sua vida transcorrer de trás para frente, com uma certeza incontestável de fim. O fim estava sempre próximo, os anos passavam em desespero e agonia, e a cada passo conquistado, o desânimo se apoderava dela, como se a conquista fosse tão certa quanto a lembrança da cena de um filme visto repetidas vezes.
Era bom não falar com ninguém sobre tais coisas... afinal, sabia viver melhor aquele que mentia, que fingia e dissimulava tão profundamente a ponto de acreditar ser verdade. Infelizmente, nem em um segundo tanta dissimulação a fizera crer, o que só aumentara a certeza de estar realmente louca!
Mas, digam, os loucos sabem que o são?
Então, talvez ela não fosse louca, apenas um pouco desequilibrada, ou sonhadora, ou romântica, ou depravada, ou qualquer coisa que não se mostrasse assim tão simples e linear e estático e direto.
Ora, ela teria uma escolha: poderia tentar se encaixar em tudo o que ali estava, ou seguir pela vida afora assim mesmo, sem certeza de nada, sem noção de coisa nenhuma e menos ainda de si mesma.
O certo é que depois de tantas análises inúteis, chegara à conclusão de que, no fundo, as pessoas eram todas assim e todas, sem exceção, dissimulavam o tempo todo, sempre fingindo serem o que não eram, mais grandiosas, mais nobres, mais gentis, mais felizes, mais humanas, mais, mais e mais...
Percebera, embora tardiamente, que não, não estava enlouquecendo, não, não era diferente (embora seu ego teimasse em afirmar ser superior, majestosa, praticamente iluminada!), era mesmo igual a todos e como todos seguiria pelo mundo mascarada, perturbada e só!
domingo, 7 de setembro de 2008
"Ficções"
"Devo à conjunção de um espelho e uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar (...) Do fundo remoto do corredor, o espelho nos espreitava. Descobrimos (na noite alta esta descoberta é inevitável) que os espelhos têm algo de monstruoso. Então Bioy Cesares recordou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens"
(Ficções - Jorge Luis Borges)
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Partida
nesta tarde ensolarada de domingo,
é poder, no momento da partida,
lembrar-me de estar trocando os lençóis de nossa cama de casal,
olhando a árvore que balança através de nossa janela,
ouvindo os pássaros que nela se escondem.
E lembrar de ter trinta anos apenas,
e de ser enlouquecedoramente feliz!
Para que tal minuto,
quando a vida me vier assolar com sua fúria inesperada,
se traduza, então, em Eternidade.
“UM FILHO E UM CACHORRO”
Ela ainda não tinha um filho, se bem que tivesse um cachorro, que deixara com a avó. Estava desinteressadamente trocando as estações de rádio enquanto dirigia, quando ouvira a música e rira divertidamente da letra, “como num comercial de margarina” era de uma profundidade certeira, pensara.
Não sabia o que era se sentir num comercial de margarina, mas quase que diariamente encontrava pessoas que se sentiam em um. Não se lembrava de onde vinha aquela descrença profunda que parecia já ter nascido com ela.
A verdade é que nunca acreditou na filosofia do comercial de margarina.
Era uma descrença de infância, e que fazia com que suas bonecas se separassem, fossem traídas, casassem novamente e novamente se separassem, ou os maridos morressem e os filhos sumissem. Lembrou-se de que a mãe, vendo chocada aquilo, a mandara para uma ludoterapeuta, num desespero misturado a complexo de culpa.
Já naquela época sabia que a mãe não era culpada, era a vida e só isso.
Mas, aos sete anos, seria inútil dizer qualquer coisa à mãe porque ela ainda acreditava, apesar do casamento fracassado, no maldito comercial de margarina!
A ida a terapeuta não fora tão ruim assim, é verdade, se bem que ela continuou pela vida afora cheia de neuroses e complexos que aumentavam na mesma proporção de suas rugas. Não sabia se os desenhos que fizera na terapia era o que realmente sentia, ou o que achava que a terapeuta queria ver, sabe-se lá. Também não sabia se percebia que aqueles encontros semanais significavam que existia um problema a ser resolvido. Mas é certo que foi uma experiência interessante ao menos para descartar, definitivamente, a possibilidade de fazer novamente qualquer tipo de terapia.
Agora, ouvindo a música, pusera-se a pensar em que momento perdera a fé no comercial de margarina. A perda dessa crença alterou profundamente suas perspectivas de vida. Daí em diante sua existência seria pautada não pelos objetivos positivos, mas pelos objetivos de negação: não sair de casa antes dos vinte oito, não casar ou engravidar antes da formatura, não ter filhos antes dos trinta e cinco e assim por diante. A equação era muito simples: a vida não era exatamente do jeito que se queria, então, não adiantava ter grandes ambições, era preciso escapar dos erros e o que viesse de bom seria lucro!
A descrença na filosofia do comercial de margarina tomou grandes proporções: por conta dela não fizera festa de quinze anos, não fizera festa de formatura e nem festa de casamento. É que se sentiria sempre uma farsante, adepta de uma filosofia mentirosa e não podia compactuar com isso. E quando aparecia em uma dessas cerimônias, olhava as pessoas com olhos espantados, todas vivendo quatro horas de ilusão consciente, como que embriagadas ou entorpecidas pela filosofia do comercial de margarina!
Ora, a vida não era isso!
Era bem verdade que lá no fundo, bem no fundo, alguma coisa da filosofia existia nela, latente, soturna, esperando o momento exato para se manifestar e tornar a sua vida uma fonte profunda de desilusão. Por isso, era melhor, ainda que só conscientemente, manter sua descrença em tudo o que lembrasse aqueles comerciais bonitinhos, com suas mamães, seus papais e filhinhos, e o cachorro, lógico, tão pasteurizados que faziam-na imaginar aqueles filmes coloridos por computador.
Certamente, a vida não era isso!
Era gozado para ela ver como algumas pessoas, apesar de todas as agruras do mundo, ainda se apegavam desesperadamente `aquelas cenas lânguidas da filosofia de margarina, e até mesmo aqueles que nunca em sua triste vida tivessem visto ao vivo e em cores uma cena daquelas, teimavam em acreditar naquela filosofia barata.
Não, definitivamente a vida não era isso!
Lembrou-se de que pouco tempo atrás, a mãe dissera que, infelizmente, não tinha tido uma família normal, como aquelas de comercial de margarina. Deus, pensara, ela ainda acredita nisso, depois de todos esses anos? E foi então que percebera como a ignorância pode realmente ser uma benção, mas também pode ser a desgraça de um ser humano. Ora, quem disse que aquilo era uma família normal, aquilo era a coisa mais fake que já tinha visto em toda a sua vida!
Mas, alguns ainda acreditam em todo o tipo de filosofia de botequim que se empurra goela abaixo!
A triste constatação que fazia ao pensar nisso tudo, é que a fabulosa filosofia do comercial de margarina era transmitida de geração a geração há tempos. E calculava que se tais terríveis comerciais responsáveis pela criação de uma legião de pedintes por felicidade existiam desde a década de cinqüenta, havia no mundo umas três ou quatro gerações que se formavam com base na filosofia do comercial de margarina.
E como alertá-los de que a vida JAMAIS seria isso?
Ao menos ela, pensava, estava livre dessa doença que paralisava a mente humana e fazia com que todos seguissem como que cegos ao que a vida realmente tinha a oferecer de enriquecedor. E pensou que se soubessem o que ela achava a respeito dos comerciais de margarina e da existência, diriam que era uma pessimista de plantão, descrente do amor e da família. Não! Ao contrário, ela acreditava no bom e no belo, mas acreditava muito mais na Vida, e a Vida era mais forte que tudo isso, a Vida se fazia presente sempre de forma devastadora!
E era por isso que a filosofia de comercial de margarina não podia ser levada a sério!
A música terminara e repentinamente sua auto-análise a fizera descobrir em que momento banira para sempre de sua vida a crença no comercial de margarina: e viu, como se revivesse, seus sete anos de idade, o carro se afastando, o olhar cabisbaixo do pai parado na calçada, o pacote de biscoito em suas mãos, e o vazio, e o silêncio e a dor.